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domingo, 18 de março de 2012

100 livros essenciais da literatura brasileira

Odete Soares Rangel

A revista Bravo selecionou os 100 melhores livros dos melhores autores do país. Melhores para os críticos que os escolheram, não sei para você. Literatura é uma coisa muito pessoal, o que é bom para mim, pode não o ser para você. Mas, tenho lido a revista e ficado encantada com muitas das matérias  sobre literatura, e especialmente as entrevistas publicadas. Lembro que li duas que gostei muito, uma com José Saramago e a outra com Marco Nanini. No site http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/100-livros-essenciais-398904.shtml você encontra a matéria completa sobre os 100 livros da literatura brasileira considerados imperdíveis.

Os livros, cujos títulos estão em itálico, foram os que já tive o prazer de ler. Alguns não entendi muito bem, outros não me foram de todo prazerosos, outros gostaria de reler, mas há aqueles que ficarão na minha memória e no meu coração para sempre, pois me apaixonei por eles, a exemplo de Macunaíma e Vida e morte Severina.

Abaixo transcrevo a lista dos livros indicados, em ordem alfabética de autor.  Boa leitura!


Você pode ainda visitar o site da BRAVO: http://www.bravo.pt/ .

“Adélia Prado: Bagagem

Aluísio Azevedo: O Cortiço

Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos
                                       Noite na Taverna

Antonio Callado: Quarup

Antônio de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda

Ariano Suassuna: Romance d'A Pedra do Reino

Augusto de Campos: Viva Vaia

Augusto dos Anjos: Eu

Autran Dourado: Ópera dos Mortos

Basílio da Gama: O Uraguai

Bernando Élis: O Tronco

Bernando Guimarães: A Escrava Isaura

Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados

Carlos Drummond de Andrade: A Rosa do Povo
                                                           Claro Enigma

Castro Alves: Os Escravos
                          Espumas Flutuantes

Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência
                                Mar Absoluto

Clarice Lispector: A Paixão Segundo G.H.
                                  Laços de Família

Cruz e Souza: Broquéis

Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba

Dias Gomes: O Pagador de Promessas

Dyonélio Machado: Os Ratos

Erico Verissimo: O Tempo e o Vento

Euclides da Cunha: Os Sertões

Fernando Gabeira: O que é Isso, Companheiro?

Fernando Sabino: O Encontro Marcado

Ferreira Gullar: Poema Sujo

Gonçalves Dias: I-Juca Pirama

Graça Aranha: Canaã

Graciliano Ramos: Vidas Secas
                                   São Bernardo

Gregório de Matos: Obra Poética

Guimarães Rosa: O Grande Sertão: Veredas
                                 Sagarana

Haroldo de Campos: Galáxias

Hilda Hilst: A Obscena Senhora D

Ignágio de Loyola Brandão: Zero

João Antônio: Malagueta, Perus e Bacanaço

João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina

João do Rio:A Alma Encantadora das Ruas

João Gilberto Noll: Harmada

João Simões Lopes Neto: Contos Gauchescos

João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro

Joaquim Manuel de Macedo: A Moreninha

Jorge Amado: Gabriela, Cravo e Canela
                           Terras do Sem Fim

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

José Cândido de Carvalho: O Coronel e o Lobisomen

José de Alencar: O Guarani
                                 Lucíola

José J. Veiga: Os Cavalinhos de Platiplanto

José Lins do Rego: Fogo Morto

Lima Barreto: Triste Fim de Policarpo Quaresma

Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada

Luis Fernando Verissimo: O Analista de Bagé

Luiz Vilela: Tremor de Terra

Lygia Fagundes Telles: As Meninas
                                          Seminário dos Ratos

Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas
                                     Dom Casmurro

Manuel Antônio de Almeida: Memórias de um Sargento de Milícias

Manuel Bandeira: Libertinagem
                                  Estrela da Manhã

Márcio Souza: Galvez, Imperador do Acre

Mário de Andrade: Macunaíma;
                                   Paulicéia Desvairada

Mário Faustino: o Homem e Sua Hora

Mário Quintana: Nova Antologia Poética

Marques Rebelo: A Estrela Sobe

Menotti Del Picchia: Juca Mulato

Monteiro Lobato: O Sítio do Pica-pau Amarelo

Murilo Mendes: As Metamorfoses

Murilo Rubião: O Ex-Mágico

Nelson Rodrigues:  Vestido de Noiva
                                   A Vida Como Ela É

Olavo Bilac: Poesias

Osman Lins: Avalovara

Oswald de Andrade: Serafim Ponte Grande
                                       Memórias Sentimentais de João Miramar

Otto Lara Resende: O Braço Direito

Padre Antônio Vieira: Sermões

Paulo Leminski: Catatau

Pedro Nava: Baú de Ossos

Plínio Marcos: Navalha de Carne

Rachel de Queiroz: O Quinze

Raduan Nassar: Lavoura Arcaica
                               Um Copo de Cólera

Raul Pompéia: O Ateneu

Rubem Braga: 200 Crônicas Escolhidas

Rubem Fonseca: A Coleira do Cão

Sérgio Sant'Anna: A Senhorita Simpson

Stanislaw Ponte Preta: Febeapá

Tomás Antônio Gonzaga: Marília de Dirceu
                                                Cartas Chilenas

Vinícius de Moraes: Nova Antologia Poética

Visconde de Taunay: Inocência”


Veja ainda: http://educarparacrescer.abril.com.br/livros/ 

Dança popular brasileira

Odete Soares Rangel

Você já ouviu falar de "jongo" e de "cachuera"? Vou lhes falar um pouco sobre isso.

O jongo é uma dança popular praticada principalmente no sudeste do país. Mas ela não é só uma dança, ela diz muito sobre a história do Brasil, a influência dos negros e da religião na nossa cultura. Essa tradição do sudeste, permeia o ciclo do café, vem do tempo dos escravos, e era tocada por eles para falarem de coisas do seu cotidiano.

A estrutura é simples, no dançado pela cachuera, todos os presentes acompanham com os tambores cantando e batendo palmas. Enquanto isso, um casal no meio da roda, repete uma sequência de passos quase invariáveis, porém seus valores culturais e históricos são muito fortes.

Cachuera é a palavra entoada para anunciar uma nova canção. É como se fosse um pedido de licença para falar. Atualmente, os grupos de cachuera trabalham com danças como batuque de umbigada, congada e moçambique mineiro.  

Alguns grupos ensaiam na Universidade de São Paulo. O Instituto Brincante na Vila Madalena também se dedica as danças populares. Em São Paulo há ainda o grupo Cupuaçu criado em 1986, por um grupo de amantes das danças brasileiras, juntamente com alunos de um curso de teatro. O Cupuaçu se focou no Maranhão, e se dedica a ciranda, tambor de crioula, cacuriá, coco e jongo.  O Cupuaçu também realiza as festas de Bumba meu Boi (o renascer, batizado e morte do boi) no Butantã em São Paulo. Em geral, realizadas no sábado de aleluia, um sábado próximo a são João e a última, no terceiro domingo de outubro. 

Para quem não lembra, a festa do Bumba meu Boi relata a história de um casal de retirantes. Catirina, a mulher está grávida e sente desejo de comer língua de boi. O marido, Pai Chico, para satisfazer a mulher,  rouba um boi de estimação de um rico fazendeiro. Ao tomar conhecimento do roubo, o fazendeiro ordena que os vaqueiros e índios saiam a procura do animal. Eles o encontram doente, então chamam um pajé, um médico e um curandeiro para curá-lo. Após muito esforço, o animal se recupera e uma grande festa encerra a representação. O Bumba meu Boi é dançado em diversas regiões do Brasil. Eram festas ligadas ao ciclo de vida e morte, tendo o boi como figura central. 

Em Santa Catarina, ha uma representação chamada Boi de Mamão, bastante semelhante, impregnada de metáforas, história e cultura popular.

Existem muitos outros tipos de danças, a congada bastante praticada em Minas Gerais por exemplo. É uma dança de cortejo, onde são reverenciados o rei e a rainha do congo. 
  
As letras, passos e maneira de tocar os instrumentos eram transmissões orais. 

Essas brincadeiras ou folguedos têm seus rituais.  Por exemplo, na cachuera, a fogueira é um elemento obrigatório para afinar os tambores. Daniel Reverendo é um dos compositores de muitas das músicas cantadas nas rodas de jongo.

É lamentável que as danças populares e folclore não sejam tão conhecidos e divulgados. Parte da sociedade desconhece ou ignora por puro preconceito, sem ter consciência da importância cultural e histórica dessas apresentações. E não percebem coisas importantes como o significado da mensagem, o afeto dos atores. Nessas danças,  há o abraço, o estar junto, o dançar junto, o sentir-se igual na alegria.

Que esses grupos persistam e não desistam.

sábado, 17 de março de 2012

Gabriela Mistral em poucas palavras


Gabriela Mistral foi o nome literário adotado por  Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga  (Vicuña, Chile, 07.04.1889 - Hempstead, Nova Iorque, 10.01.1957). Sua mãe viúva uma vez e abandonada outra, teve duas filhas: Emelina e Lucila. Sua família   foi abandonada pelo pai quando Lucila tinha três anos de idade. Sua irmã Emelina foi quem lhe deu a educação básica. Sua mãe faleceu no ano de 1929,  a escritora dedicou-lhe a primeira parte de seu livro Tala, a que chamou: Muerte de mi Madre.

Ávida por aprender, Lucila, aos catorze anos,  começou a publicar artigos e poemas em periódicos de Villa La Serena e Vicuña. Pode-se dizer, que na sua obra é visível o amor pelos humildes, e um interesse mais amplo por toda a humanidade. A tragédia do suicídio do noivo marcou a sua poesia com um forte sentimento de carinho maternal, principalmente nos seus poemas em relação às crianças.

Aos dezesseis ensinava em escolas pequenas no Chile. Aos 21 obteve excelentes resultados em um teste numa escola em Santiago, sendo então permitido a ela ensinar em escolas secundárias.

Em 1922, ela foi convidada pelo Ministério da Educação do México para atuar nos planos de reforma educacional daquele país.

Ela foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura, de 1945. A partir de então, ela ganhou notoriedade na literatura internacional, passou a viajar por todo o mundo com a missão de representar seu país em comissões culturais das Nações Unidas. Assim, foi obrigada a abandonar o ensino para poder exercer sua função diplomática.

Gabriela se enamorou do ferroviário Romelio Ureta que se suicidou  em 1909, para escapar de suas dívidas. Ele foi inspiração para Los Sonetos de La Muerte (Sonetos da morte) e outros trabalhos da poeta. Esses sonetos ganharam os jogos florais  (Los Juegos Florales) de 1914, em Santiago.

Nesse tempo, ela continuava ensinando em escolas do Chile, enquanto publicava poemas e ensaios em jornais e revistas.

A partir de 1918, ela foi diretora em colégios  de diversas cidades.  Em Temuco, percebeu o talento de Pablo Neruda, incentivando-o a escrever.  Ambos eram de origem humilde, escritores precoces, ativistas e diplomáticos. Neruda era do mar e do Sul do Chile, ela; das montanhas e do norte chileno.

Durante aqueles anos, Gabriela manteve correspondência amorosa com o poeta chileno Manuel de Magallanes Moure, mas negava dar-lhe a prova de amor que ele pedia. Alegava que isso destruía as imagens do amor sensual que ela tinha em coisa selvagem e brutal.  Teria ela confessado que tinha um trauma de infância, pois aos sete anos teria sido violentada por um jovem rapaz. 

Em 1922, recebeu um convite para colaborar na criação de bibliotecas  populares no México.

Seu primeiro livro Desolacion foi publicado em Nova Iorque.

Do México foi para os Estados Unidos, onde dava aulas e ministrava seminários.  Regressou ao Chile em 1925, após a publicação da sua segunda obra chamada Ternura.

Em 1932, obteve o cargo vitalício de cônsul. Ela o exerceu, com muita diplomacia, em muitas cidades da Europa e em Petrópolis, no Brasil.

Tala, seu terceiro livro de poesia foi publicado em 1938.

Gabriela teve um filho adotivo Yin-Yin, hora ela apresentava-o como sobrinho, outra como filho de uma amiga. Alguns crêem que ele foi filho carnal dela, mas a versão mais plausível é de que fosse sobrinho. Palma Guillén e Gabriela Mistral o criaram juntas. Uma tragédia ocorreu em Petrópolis, no ano de 1943. Ele morreu envenenado por arsênico, aos 18 anos de idade. Ela o amava tanto que entrou em depressão, quase beirando a loucura.
 
Ela foi nomeada Cônsul em Los Angeles e fixou residência em Santa Bárbara na Califórnia. Regressou pela terceira vez ao Chile, desde que de lá saíra aos 33 anos de idade, para receber o Prêmio  Nacional de Literatura e lançar Lagar, Foi lá que ela seu quarto livro de poemas , em 1952. Foi na Califórnia que escreveu sua última obra El Poema de Chile (Poema de Chile), publicado postumamente.

Ela teve uma relação de nove anos com a escritora Dares Dana, considerada sua assistente pessoal.

Gabriela morreu em Long Island, em 1957. Lá ela e Dóris viveram felizes sua união. As cartas que ela escrever a Dóris foram publicadas em 2009, com o título de Niña Errante.

Após a morte de Dóris, em 2006, sua sobrinha doou a Biblioteca Nacional do Chile todo o acervo de 168 poemas inéditos, manuscritos, fotos  e outros documentos. Um verdadeiro tesouro para entender esse mito chamado Gabriela Mistral, cujos estudiosos e leitores podem vê-la sob sua própria ótica. Para encerrar transcrevo um de seus poemas mais conhecidos que se identifica com sua história de educadora.

LA ORACIÓN DE LA MAESTRA

¡Señor! Tú que enseñaste, perdona que yo enseñe; que lleve el nombre de maestra, que Tú llevaste por la Tierra.

Dame el amor único de mi escuela; que ni la quemadura de la belleza sea capaz de robarle mi ternura de todos los instantes.

Maestro, hazme perdurable el fervor y pasajero el desencanto. Arranca de mí este impuro deseo de justicia que aún me turba, la protesta que sube de mí cuando me hieren. No me duela la incomprensión ni me entristezca el olvido de las que enseñé.

Dame el ser más madre que las madres, para poder amar y defender como ellas lo que no es carne de mis carnes. Alcance a hacer de una de mis niñas mi verso perfecto y a dejarte en ella clavada mi más penetrante melodía para cuando mis labios no canten más.

Muéstrame posible tu Evangelio en mi tiempo, para que no renuncie a la batalla de cada hora por él. Pon en mi escuela democrática el resplandor que se cernía sobre tu corro de niños descalzos, Hazme fuerte aun en mi desvalimiento de mujer, y de mujer pobre; hazme despreciadora de todo poder que no sea puro, de toda presión que no sea la de tu voluntad ardiente sobre mi vida. ¡Amigo, acompáñame!, ¡sosténme! Muchas veces no tendré sino a Ti a mi lado. Cuando mi doctrina sea más cabal y más quemante mi verdad, me quedaré sin los mundanos; pero Tú me oprimirás entonces contra tu corazón, el que supo harto de soledad y desamparo.

Yo sólo buscaré en tu mirada las aprobaciones.

Dame sencillez y dame profundidad; líbrame de ser complicada o banal en mi lección cotidiana. Dame el levantar los ojos de mi pecho con heridas al entrar cada mañana a mi escuela. Que no lleve a mi mesa de trabajo mis pequeños afanes materiales, mis menudos dolores.

Aligérame la mano en el castigo y suavízame más en la caricia. ¡Reprenda con dolor, para saber que he corregido amando! Haz que haga de espíritu mi escuela de ladrillos. Le envuelva la llamarada de mi entusiasmo su atrio pobre, su sala desnuda.

Mi corazón le sea más columna y mi buena voluntad más oro que las columnas y el oro de las escuelas ricas.

¡Y, por fin, recuérdame, desde la palidez del lienzo de Velázquez, que enseñar y amar intensamente sobre la Tierra es llegar al último día con el lanzazo de Longinos de costado a costado!

sexta-feira, 16 de março de 2012

A imprensa

Odete Soares Rangel


A lâmpada gigantesca
Das glórias do porvir, 
Turíbulo majestoso
No mundo a irradir, 
É a imprensa tesouro
E c'roa de verde louro
A fronte do escritor! 
E centelha sublimada
Que vem do céu arrojada
A treva dando fulgor!
-- O homem nasceu pequeno
Mas com as letras cresceu 
Foi como o vulto de Rodes 
Que lá tão alto s’ergueu!
Foi preciso -- estudando
Co’a própria idéia lutando
Mergulhar-se na luz! 
Foi preciso ter glória,
Brilhante, leda memória,
Colher renomes a flux!
Foi preciso mil lutas
Mil labores insanos
P'ra descobrir nesses mundos
Da diva luz os arcanos! 
Foi preciso que um bravo 
Não mostrando-se ignavo 
Mas inspirado por Deus! 
A pedra bruta talhasse
E a luz então derramasse
Qual seiva santa dos Céus!
Foi preciso os séculos
Ainda um pouco nas trevas 
Erguessem as frontes bem alto
E devastassem mil selvas!
Foi preciso que o mundo 
Sentisse abalo profundo 
Ao desvendar- se o saber! 
Foi preciso que os entes 
Ou se erguessem potentes 
Ou tombassem a morrer!
Mas não! -- o homem ergueu-se, 
Quase, quase com Deus
Tirou a fronte da treva
E só pregou-a nos 
Céus! Viu o futuro de louros
E quis colher os tesouros
Que dão renome sem fim! 
Sonhou, sonhou co’a vitória 
E o gládio teve da glória 
Qual o grão Bernardim!
O homem, gênio sublime, 
Caminha, com seu bordão 
Até achar o brilhante
A luz, a luz da razão!
Tropeça um pouco, se tomba
Ergue-se, voa qual pomba
E indo a luz descobrir, 
Busca ouvir no infinito
Do eco ao longe este grito: 
Trabalha para o porvir!
Quando os povos modernos, 
Sentirem no coração
Uma ardente centelha 
Que caia lá d'amplidão! 
Deixarão esses vícios,
Insanos, negros, fictícios
Que dão só noite ao viver! 
E irão curvados a ela 
Depor-lhe verde capela 
Farão então por crescer!
Camões, Milton, Abreu, 
Já da vida sem lampas,
Erguei-vos crânios altivos 
Espedaçai essas campas! 
Dizei -- se o homem caminha 
Se na treva definha
A quem se deve louvar?!... 
S’as letras seguem ovantes
Dizei ó nobres gigantes
A quem se ergue alcaçar?!!...
E Guttemberg esse herói,
Essa vergôntea dinal,
Que co'escopro na destra! 
Foi das letras fanal!
Ao descobrir a imprensa
Essa epopéia imensa
Para toda a nação,
Com glória ingente sonhava
Na luz por certo nadava
Já tinha os louros na mão!



(Cruz de Souza)
Fonte: www.dominiopublico.gov.br






O soneto

Odete Soares Rangel



Nas formas voluptuosas o soneto 
Tem fascinante, cálida fragrância 
E as leves, langues curvas de elegância 
De extravagante e mórbido esqueleto.
A graça nobre e grave do quarteto 
Recebe a original intolerância, 
Toda a sutil, secreta extravagância 
Que transborda terceto por terceto.
E como um singular polichinelo 
Ondula, ondeia, curioso e belo, 
O Soneto , nas formas caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura vetusta 
E nas mais rara procissão augusta 
Surge o Sonho das almas dolorosas...
(Cruz de Souza)
Fonte: www.cbj.g12.br

Viola Chinesa

Odete Soares Rangel



Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

            (Camilo Pessanha)

Como comecei a escrever

Odete Soares rangel


Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma vez por semana aos domingos. As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde. Não dava para ler o papel transformado em mingau.

Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de Domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar.

Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narra um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras.

Daí por diante as experiências foram se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a leitura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar. Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estavam germinando. Meu irmão, estudante na Capital, mandava-me revistas e livros, e me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz, tive sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever.

Então começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café-sentado ( pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado ) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.

(Carlos Drumond de Andrade)


quinta-feira, 15 de março de 2012

Amar

Odete Soares Rangel



O texto tem algumas particularidades.  Já na segunda frase, o ponto de interrogação nos sugere questionamentos. Ele é construído com muitos outros pontos de interrogação, estabelecendo polêmicas sobre o tema principal, o amor.  É como se o poeta convidasse o leitor a participar com suas experiências. E dessa forma, fica implícita que a nossa falta de amor deva ser amada, tal como devemos amar a água implícita em nossa secura, o beijo não dado mas tácito, a sede infinita que o ser humano tem de amar (últimas três linhas).  

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados,
amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
 
(Carlos Drummond de Andrade)

Infância 2

Em uma pesquisa na INTERNET percebi que alguns internautas postaram a poesia como autoria de Odete Soares Rangel. Eu apenas a postei, mas a autoria da mesma é de Lalau (escritor) e Laurabeatriz (ilustradora).  

Acredito ter induzido as pessoas a  esse equívoco, uma vez que meu nome constava em todas as minhas postagens, não como autoria, mas como responsável pelas mesmas com as suas respectivas fontes.  Vou revisar os posts e deixar meu nome apenas naquelas de minha autoria.  Assim, peço aos internautas corrigirem seus posts, colocando o meu blog como referência de onde retiraram o texto <https://odeter.blogspot.com/2012/03/infancia-2.html> e a autoria correta da poesia.

A pesquisa da informação antes de uma postagem é de fundamental importância, sempre faço isso!  

Até onde tenho conhecimento Lalau e Laura são parceiros, ele escreve as poesias e ela as ilustra.

Sugiro a leitura dos links indicados abaixo.
<http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/os-bicho-poemas-de-lalau-49419>
<https://www.facebook.com/lalauelaurabeatriz/>
<http://www.editorapeiropolis.com.br/biografia/?autor=182>
<https://www.editorapeiropolis.com.br/biografia/?autor=219>


Infância 2 - Lalau e Laurabeatriz

Joguei pião na terra
Fiz piquenique na serra,
Querei bolinha de gude,
Corri o mais que pude,
Tirei zero na prova,
Menti que tirei dez,
Ganhei uma bola nova,
Machuquei os dois pés,
Assustei um gato,
Capturei um raro,
Minha mãe não gostou,
Colecionei gibi,
Disco voador eu não vi,
Troquei figurinha,
Comi paçoquinha,
Me escondi no quintal,
Usei chapéu de jornal,
Tive amigo japonês,
Amigo pretinho,
Amigo alemão,
Amigo baixinho,
Levei choque em tomada,
Fiquei com o nariz entupido,
Arranjei uma namorada,
Namorei escondido,
Assisti filme de terror,
No calor, senti frio,
No frio, senti calor,
Peguei balão no telhado,
Brinquei de caubói,
Brinquei de índio,
Brinquei de soldado,
Fui um desenho animado.

Fonte: ( Girassóis e outras poesias. São Paulo:Companhia das letrinhas. 1995. p. 28-9)

Literatura de Cordel: Big Brother Brasil, um programa imbecil

Odete Soares Rangel

A literatura está presente na vida de todos nós.   Antônio Barreto, cordelista natural de   Santa Bárbara-BA, fez este cordel  para mostrar às pessoas quão alienante é o Big Brother Brasil. E a julgar pelo que vemos na mídia  sobre o tal Big Brother 12, indica que ele tem razão. Seu cordel é um alerta para que as pessoas não cooperem com tamanho absurdo, não assistam ou votem. Deve-se cobrar da emissora programas criativos, instrutivos, culturais, dos quais se adquira algum conhecimento ou tenha alguma aplicabilidade.  Seria ótimo se o Ministério das Comunicações eliminasse essa praga. Veja notícia de hoje no Diário Catarinense, clicando no link http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/noticia/2012/01/ministerio-das-comunicacoes-pode-tirar-big-brother-brasil-do-ar-3635349.html.

[...]

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.
E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.
E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.
[...]
Leia o texto completo no site: