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sábado, 10 de setembro de 2011

Biografia de Luis de Camões

Odete Soares Rangel


A biografia foi transcrita da obra indicada na fonte. À  exceção dos tremas que foram retirados, o restante da obra manteve a acentuação original, ainda que em descordo com as normas ortográficas atuais. Esta decisão levou em conta que estudantes e estudiosos do assunto, contarão com um texto riquíssimo para fazer uma análise da linguagem/ lexicografia. Algumas partes, quando as lemos, parecem constituir-se em erros, mas não são erros de digitação, fazem parte da construção original do texto à época.

O texto é longo, alguns podem achar cansativo, mas lhes garanto se for lido com entendimento, é muito interessante. E depois de ler a biografia, não deixe de ler Os Lusíadas, uma obra emocionante.

Luis de Camões (1524-1580)


I
Nos primeiros meses de 1572, Mestre Antônio Gonçalves, impressor estabelecido com oficina própria à Costa do Castelo, em Lisboa, concluía a impressão de um longo poema em oitava rima (14), intitulado Os Lusíadas, no qual eram celebrados, por meio de alusões históricas e mitológicas de difícil compreensão, os feitos heróicos da gente portuguêsa na guerra como no mar.  O poema fôra escrito por um certo Luís de Camões, autor pouco conhecido naqueles dias e certamente de escasso valimento, pois nem frequentava a Côrte  nem estava subvencionado por qualquer fidalgo ilustre. Sabia-se apenas que lutara no ultramar, onde, numa escaramuça contra os mouros, tivera um dos olhos vazado, e que voltara à pátria alquebrado e pobre, indo então residir na Mouraria, em companhia de sua mãe, Dona Ana de Macedo.

Não é de estranhar o descaso com que Mestre Antônio tratava o autor do poema épico de cuja impressão se encarregara, talvez a instâncias do Padre Manuel Correia, examinador sinodal do Arcebispado de Lisboa. Como poderia êle advinhar que os séculos futuros haveriam de saudar aquelas estrofes de difícil sentido e que seu desimportante autor seria colocado, no rol dos imortais, ao lado de Dante, Cervantes, Petrarca e Shakespeare?  Semelhantemente ao impressor da Costa do Castelo, os liteartos da época também pouca atenção deram ao Poeta, e quase tudo quanto hoje sabemos de sua vida atribulada, referta de tão cansado sofrimento, são algumas lacônicas notícias, que um ou outro  de seus contemporâneos consentiu em excepcionalmente registrar para a posteridade.

A falta de informações pormenorizadas deu ensejo a que se entretecesse de lendas a biografia de Camões, lendas nas quais a vontade de exaltação não hesita em deliberadamente torcer as leis da verossimilhança. Visando a fazer do Poeta um modêlo de tôdas as virtudes, a maioria de seus biógrafos esforça-se por ocultar-lhe o possível plebeísmo de origem, inventando-lhe, em substituição, foros de alta fidalguia, como se sòmente a nobreza fôsse berço digno de um "cantor de Raça".

Ao traçar-lhe a árvore genealógica, os estudiosos da vida de Camões têm por hábito dar-lhe, como ascendente mais remoto, certo Vasco Peres de Camões, fidalgo pertencente a uma família galega fixada nos arredores da Finisterra. Tendo abandonado o torrão natal por questões de ordem política, Vasco Peres de Camões passou-se para Portugal em fins do século XIV, ali constituindo família e ali se fazendo soldado, cortesão e poeta. Um dos seus netos uniu-se pelo matrimônio à estirpe dos Gamas do Algarve, dando nascimento a Simão Vaz de Camões, pai do Poeta. 

Nessa genealogia se percebe, desde logo, o desejo de exaltar Camões, dando-lhe um trisavô afidalgado e fazedor de trovas, e uma avó ligada à linhagem de Vasco da Gama, o navegante cujos feitos foram imortalizados nas estrofes sonoras dOs Lusíadas. A autenticidade de tal filiação é problemática:em todos os percalços de sua vida, que foram muitos, jamais teve Camões a mão de algum parente nobre interferindo por si, quer para salvá-lo das iras da lei, com a qual mais de uma feita se viu às voltas, quer para aliviar a vil miséria e dura que sempre lhe acompanhou os passos. 

Outrossim, o sobrenome Camões já estava muito difundido em Portugal nos primórdios de século XVI. Famílias com êsse patronímico havia-as em Coimbra, Lisboa, Alenquer, Évora, Avis, etc., e, supôs-las tôdas entroncadas em Vasco Peres, que emigrara para Portugal apenas cento e cinquenta anos antes, é atribuir ao galhardo finisterrense, observa irônicamente Aquilino Ribeiro, "um patriarcado, êmulo de Abrão na prolificidade..." Prefere, antes, êste estudioso da vida e da obra do Poeta filiá-lo a um ramo menos nobre da frondosa árvore de Camões, ramo cuja fidalguia fôsse, quando muito, de meia-tigela.  

Não se conhece com certeza nem o lugar nem a data de nascimento de Camões. Alguns biógrafos, interpretando-lhe ao pé da letra êste sonêto, dão-no como nascido em Alenquer.

No mundo poucos anos, e cansados,
Vivi, cheios de vil miséria e dura;
Foi-me tão cedo a luz do dia escura
Que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
Buscando à vida algum remédio ou cura;
Mas aquilo que, enfim, não dá ventura,
Não o dão os trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
Pátria minha Alenquer; mas ar corruto,
Que neste meu terreno vaso tinha,

Me fêz manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates na Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa pátria minha!


A se aceitar como verídica a declaração do Poeta de ter sido Alenquer a verde e cara Pátria sua, vale dizer, sua cidade natal, haveria que aceitar igualmente como verídica a outra afirmativa do sonêto: a de Camões ter falecido antes de completar vinte e cinco anos (Que não vi cinco lustros acabados), afogado nos mares da Abissínia (manjar de peixes em ti, bruto/Mar, que bates a Abássia fera e avara); afirmativa essa absurda. 


Apoiando-se em vários outros passos, de igualmente duvidosa interpretação, da obra do Poeta, certos biógrafos acreditam-no nascido em Santarém. Alguns fazem fé na declaração de Domingos Fernandes, livreiro da Universidade de Coimbra, que, ao publicar em 1607 uma edição das Rimas de Camões, escreveu no prefácio do livro: "...nascendo êle, nessa vossa cidade de Coimbra, a vosso peito como Mãe natural o criastes tantos anos; com vossas doutrinas o ensinastes alguns, e com vossos louvores, como fiel amigo, o honrastes tantas vezes". Todavia, tal declaração tem sido interpretada mais como expediente de editor buscando lisonjear o bairrismo de seus eventuais fregueses, qye fato provado.


Atualmente, a maioria dos camonistas inclina-se a aceitar Lisboa como berço natal do Poeta, tendo em vista não apenas testemunhos mais ou menos fidedignos de contemporâneos  seus, como as invocações por êle feitas às Tágides, divindades fluviais criadas pela sua fantasia de lisboeta nato que, vendo o Tejo como pátrio rio, exaltava-lhe miticamente as sobrenaturais virtudes inspiradoras.


A data exata do nascimento de Camões tem sido também objeto de polêmica. Sabe-se com razoável certeza, ter êle nascido no terceiro decênio do século XVI; chegou-se inclusive a tomar, algo arbitràriamente, o ano de 1524. Tal ano é particularmente significativo, pois nêle faleceu Vasco da Gama, o protagonista principal dOs Lusíadas, e nasceu Pierre de Ronsard;poeta que exe, na Literatura Francesa, papael semelhante ao de Camões na portuguêsa, ao amalgamar, numa obra de alta significação estética, o petrarquismo de cunho clássico e a tradição medieval autóctone.


Da infância de Camões nada se sabe. Teria sido, muito provàlvemente, uma infância cheia de penúria e de tristeza. Já nos começos do século XVI, Lisboa exibia os primeiros sintomas daquele acelerado processo de decadência que corroía os alicerces de uma organização social imprevidente, fundada no luxo e na indolência das conquistas  fáceis. Afora uma Côrte de parasitas, cujo fausto era subvencionado pelos dia a dia menos generosos proventos da exploração colonial, e de uma burguesia mercantil enriquecida com as especiarias do Oriente, o restante da´população  lisboeta vivia uma existência de privações. As pestes e a miragem do enriquecimento rápido em terras de África e Ásia haviam despovoado o Reino; faltos de braços que os cultivassem, jaziam os campos abandonados; os gênerosde primeira necessidade escasseavam, fazendo-se cada vez menos acessíveis à bôlsa do pobre.


Pobre deveria ter sido Simão Vaz de Camões, ou não houvera desamparado esposa e filho, partindo para as Índias em busca de miríficas riquezas. Sem as ter conquistado, morreu inglòriamente, em Goa; com o natural ressentimento dos órfãos, viu o menino Luís sua mãe contrair novas núpcias, e um estranho assumir, no lar humilde, os deveres e as prerrogativas do falecido Simão Vaz.


II
Tendo em conta a grande erudição de que Camões dá mostras na sua obra, muitos estudiosos foram levados a acreditar tivesse-a êle adquirido nos bancos da Universidade de Coimbra, centro intelectual do Reino e ufanamente  exaltada, na época, como uma "segunda Atenas".


Pela amplitude, sua erudição era, de fato, a típica de um letrado da Renascença. Conhecia profundamente a Literatura Clássica de Grécia e Roma; lia Latim com desembaraço, sabia Italiano (alguns dos seus sonetos são traduções, por vêzes superiores ao original, de composições de Petrarca) e escrevia o Castelhano com elegância.   Não parece, contudo, ter conhecido Grego, tôdas as divindades da mitologia helênica citadas em seus versos aparecem com nomes latinos.  Fôsse Camões versado no idioma de Homero, e não deixaria de valer-se da rica sinonímia de que o Grego dispõe
para designar os deuses do Olimpo. 


Atentando para o fato de os pais do Poeta terem sido gente sem recursos, crê Aquilino Ribeiro, em desacordo com  a opinião da maioria, que Camões fizesse sua educação intelectual em Lisboa mesmo, frequentando as aulas que dominicanos e jesuítas mantinham, nos seus respectivos claustros, em benefício de quantos não  dispusessem de meios para estudar em Coimbra. Convém lembrar, de passagem, que naquela época, o estudo das Humanidades era ocupação mais de plebeus que de nobres. A êstes estava de preferência reservada a carreira das armas, o aprendizado das artes fidalgas - equitação, esgrima, caça. Tanto assim que Frei Luis de Sousa, escrupuloso cronista  do quinhentismo português, não se esquecia de anotar nos seus anais d'El-Rei D. João III:"Davam-se aquêle tempo todos os nobres tanto às armas e tão pouco às letras, como se fôsse verdade que a pena embotasse a lança."


É bem de ver que as aulas lisboetas, não teriam fornecido ao Poeta todo aquêle cabedal de erudição testemunhado em seus versos. Mas, homem de gênio, não é descabido pensar haja suprido, por meio de aturado e laborioso autodidatismo, as deficiências do aprendizado escolar. De autodidatismo não faltam exemplos na História: muitos homens eminentes educaram-se, não do bulício das universidades, mas no silêncio das mansardas.


Que tipo de vida teria levado o jovem Camões em Lisboa? Os partidários de sua origem fidalga apresentam-no como frequentador assíduo do Paço, até onde teria sido levado por amigos ilustres, possìvelmente por aquêle malogrado D. Antônio de Noronha, cuja morte prematura mais tarde prantearia num sonêto e numa écloga. NO Paço, o Poeta teria conhecido Dona Catarina de Ataíde, Dama da Rainha, pela qual se apaixonou perdidamente, e a quem imortalizou, sob o anagrama de Natércia, na sua lírica.  José Maria Rodrigues chega mesmo a aventar a hipótese arrojada de Camões haver se enamorado da própria Infanta D. Maria(15), que lhe inspiraria alguns dos seus mais finos versos amorosos.


Êste capítulo dos amôres de Camões  é campo fértil de controvérsias. De positivo, nada se sabe a respeito, e as musas palacianas que lhe têm sido atribuídas, não passam, segundo parece, de invenção de biógrafos imaginosos, esquecidos daquele cauteloso alvitre proposto por Aubrey Bell: o de, na qualidade de aluno da escola petrarquista, haver Camões idealizado "uma ou mais criaturas femininas, fazendo-lhes versos, como se morresse de paixão por elas, cantando-as como se fôssem senhoras do seu coração, mas só com a mira de dar forma literária a impressões que não sentia".


Mais consentâneo com fatos estabelecidos da vida do Poeta será supor 'haja êle frequentado, não a companhia de  fidalgos e damas de prol, mas a dos arruaceiros e loureiras que enxameavam as tabernas de Lisboa, tendo-se entregue ali a tôda sorte de tropelias e amôres fáceis condizentes com o seu temperamento arrebatado e sensual.


Foram essas tropelias, certamente, que deram causa ao seu destêrro de Lisboa por volta de 1548. Pensou-se, a princípio, que o destêrro fôra provocado pela representação do seu auto  El-Rei  Seleuco, inspirado em autores clássicos, no qual é narrada a história de um rei que cede a própria espôsa ao filho, enteado dela e dela enamorado. Haveria, pois, na peça uma alusão tortuosa e ferina ao casamento  de d'El-Rei D. Manuel com a noiva originalmente destinada ao filho, e tal alusão não teria passado despercebida dos ofendidos, que puniram o atrevimento do jovem tatrólogo banindo-o de Lisboa. Mas como El-Rei Seleuco foi levado à cena em casa de um oficial da Côrte, é difícil admitir houvesse nêle qualquer ofensa intencional contra o trono (16).


Exilado de Lisboa, Camões, subindo o Tejo, dirigiu-se, sem vintém nem esperanças, para o Ribatejo, onde amigos mais afortunados o acolheram e lhe deram cama e comida. Todavia, a êsse viver de favores, preferiu o Poeta os perigos e desconfortos do serviço militar na África. Depois de seis meses de permanência na província, requereu alistamento na milícia do Ultramar e, uma vez aceito, embarcou para Ceuta no outono de 1549.


III
Em Ceuta, viveu Camões, durante dois anos,  a vida cheia de perigos e privações do soldado raso. E foi em África que perdeu o ôlho direito,  no curso de uma daquelas frequentes escaramuças travadas pelos portuguêses contra os mouros inimigos de Cristo e seguidores de Mafoma.




Essa existência de peregrino vago, errante/Vendo nações, linguagens e costumes/Céus vários, qualidades diferentes, acabou transformando o estudante turbulento num homem amargo e desiludido. O Camões desembarcado em Lisboa por volta de 1551 era bem diversos do que dali partira dois anos antes. Embora voltasse para a companhia dos boêmios  do Mal-Cozinhando, taverna de má-fama, e granjeasse, pelas suas proezas de folgazão briguento, o epíteto de Trinca-Fortes, naõ mais o animava a juvenil sofreguidão de outrora. Na vadiagem e na devasidão, buscava o Poeta tão-sòmente, agora, afogar suas mágoas de vencido.


Como era de esperar, nova desgraça, forjada por aquêle seu implacável e duro Gênio de vinganças, veio agravar-lhe ainda mais a miséria física e moral. Em 1552, no dia de Corpus Christi, dois mascarados engalfinharam-se no Largo do Rossio com um xerto Gonçalo Borges, obscuro oficial da Côrte. Reconhecendo os mascarados amigos seus, Camões, que por ali passava , resolveu entrar na briga e acabou ferindo  Gonçalo Borges no pescoço. A vítima foi queixar-se à justiça d'El-Rei, e esta deteve o Poeta, encarcerando-o no Tronco, a esquálida prisão de Lisboa. Nenhum daqueles supostos amigos afidalgados que muitos biógrafos amam atribuir-lhe , veio em socorro dêle, e, não fôssem as lágrimas amargas com que Ana de Macedo provàvelmente banhou os pés de Gonçalo Borges e dos ministros reais, Camões teria ficado a mofar indefinidamente nas masmorras do Tronco.


Em fevereiro de 1553, restabelecido do ferimento, Gonçalo Borges perdoava ao agressor e a êste era concedida carta formal de perdão. O Poeta seria libertado sob duas condições:  primeira, a de pagar ao Esmoler d'El-Rei, para obras de caridade, a multa de quatro mil réis, um dinheirão naquele tempo;  segunda, a de embarcar para a Índia, a fim de servir na milícia do Oriente.   


Paga a multa - e, para pagá-la, D. Ana de macedo teve possìvelmente de empenhar suas últimas jóias, - Camões embarcou a 26 de março de 1553, na são Bento, nau incorporada à frota comandada pelo capitão  Fernão Álvares Cabral. Ia, na qualidade de soldado raso, cumprir três anos de serviço militar no Oriente. No seu coração não havia, porém, nem sêde de aventuras nem esperança de glória, mas apenas ressentimento contra os fados adversos que o impeliam a sangrentas emprêsas de guerra, quando seu gênio estava talhado para a Poesia.


IV
Seis meses ,ais tarde, a frota de Fernão Álvares Cabral aportava em Goa. A capital da Índia Portuguêsa era, então, uma cidade pitoresca, caótica, variegada, dissoluta. Livre dos freios da Lei e da Religião, tão apertados no Reino, mas benignos e frouxos no Ultramar, o emigrado português, mal punha os pés em terra indiana, deixava-se embriagar pelos perfumes capitosos daquele arremêdo de civilização européia, dominado pelo luxo e pela lascívia.Ao Poeta exilado da Pátria, êsse espetáculo de desagregação moral inspirou funda repulsa. Repulsa extravasada num sonêto amargo, em que a Goa lusitana é comparada à Babilônia bíblica:




Cá nesta Babilónia, donde mana 
Matéria a quanto mal o mundo cria, 
Cá donde o puro Amor não tem valia, 
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana; 

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana, 
E pode mais que a honra a tirania; 
Cá, onde a errada e cega Monarquia  
Cuida que um nome vão a Deus engana; 
v
Cá, neste labirinto, onde a nobreza, 
Com esforço e saber pedindo vão 
Às portas da cobiça e da vileza; 

Cá, neste escuro caos de confusão, 
Cumprindo o curso estou da Natureza. 
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
 




Poucas semanas depois de arribado ao escuro caos da confusão, Camões participava de uma expedição punitiva que o Vice-Rei D. Afonso de Noronha enviou contra o rei de Chemba, na costa do Malabar. Vitoriosa, logo regressou a expedição a Goa, mas o Poeta não teve muito tempo para descansar, pois já em fevereiro de 1554 estava engajado na frota que, sob o comado de D. Fernando de Menezes, partiu de Goa demandando o estreito de Meca, em perseguição a navios mercantes mouros que comerciavam entre a Índia e o Egito, prejudicando dessarte o monopólio mercantil dos portuguêses. A frota so voltou à Índia em novembro do mesmo ano.


Tendo assim cumprido seus primeiros seis meses de serviço, Camões fazia jus a um período de licença. Entretanto, como, durante tais férias compulsórias, os soldados alistados não recebessem sôldo, viu-se o Poeta obrigado a arranjar algum serviço para não morrer de fome. Pelo que deixa entrever numa carta escrita da Índia a amigos de Lisboa, tornou-se, nos intervalos da vida militar, escriba público: ganhava uns magros tostões adicionais rabiscando cartas para os muitos colonos analfabetos que da Colônia desejavam 
comunicar-se com seus familiares do Reino. Graças ao mesquino sôldo regular e a êsses tostões adicionais, conseguiu Camões manter-se em Goa até 1556, escrevendo, nas horas livres, alguns dos seus melhores poemas de índole  autobiográfica e, talvez, os primeiros cantos dOs Lusíadas.


Depois de haver o Poeta cumprido o estágio obrigatório de três anos na milícia do Oriente, o então governador Francisco Barreto nomeou-o para o cargo de provedor-mor  dos defuntos e ausentes (17) em Macau, entreposto comercial dos portuguêses na China.


Sua estada em Macau ficou imortalizada por uma lenda: ainda hoje existe nas proximidades daquela cidade uma estreita gruta conhecida pelo nome de Gruta de Camões onde, segundo reza a tradição, o Poeta escreveu a maior parte dOs Lusíadas. Entretanto, o cargo de provedor-mor não lhe durou muito tempo; acusado, por colonos portuguêses, de haver-se apropriado de dinheiros alheios a si confiados, Camões foi chamado a Goa para responder o inquérito judicial. Na viagem de volta, o navio em que vinha aprisionado naufragou nas costas de Camboja, próximo do rio Mecom. O Poeta conseguiu salvar-se a nado, levando consigo, único pertence, o precioso manuscrito dOs Lusíadas; viveu em companhia de monges budistas estabelecidos nas imediações do Mecom, até ser recolhido por um navio português que o levou até Goa.


Em Goa, viveu, durante vários anos, vida atribulada e difícil, marcado que estava pelo labéu de estelionatário. Parece ter sido prêso mais de uma vez,não apenas pelas supostas irregularidades de provedor-mor, como também por dívidas  não saldadas. Um dos seus mais empedernidos credores, Miguel Roiz, alcunhado de Fios-Secos pelas habilidades de espadachim, requereu-lhe a prisão e,  do cárcere, o Poeta invocou os bons ofícios do Conde de Redondo, estão vice-rei da Índia Portuguêsa, nuns versos humorísticos escritos por volta de 1562. O vice-rei não fêz ouvidos moucos às suas súplicas:concedeu-lhe a liberdade pedida e distinguiu-o, daí por diante, com a sua proteção.


Data dêsses anos difíceis em Goa o episódio pitoresco do banquete oferecido pelo Poeta a alguns amigos. Banquete no qual, celebrando de forma jocosa a miséria em que vivia, serviu aos convivas, não as iguarias esperadas, mas trovas escritas em pedacinhos de papel colocadas sob os pratos vazios. Uma dessas trovas dizia:  



Heliogábalo zombava

Das pessoas convidadas,

E de sorte as enganava

Que as iguarias que dava

Vinham nos pratos pintadas.

Não temais tal travessura,

Pois já não pode ser nova;
Que a ceia está segura
De não vos vir em pintura,
Mas há de vir tôda em trova. 

Por volta de 1567, Camões conheceun um certo capitão Pero Barreto que, de partida para Safala, se ofereceu para levá-lo até Moçambique. Chegados a Moçambique, desaveio-se Pero Barreto com o Poeta, por questões de dívidas, e mandou prendê-lo. Em fins de 1569, de passagem por aquela colônia portuguêsa, o historiador Diogo do Couto ali encontrou Camões na mais negra miséria, vivendo do favor de amigos. O encontro vem narrado numa das Décadas do historiador: "Em Moçambique achamos aquêle príncipe  dos poetas do seu tempo, meu matalote e amigo, Luís de camões, tão pobre que comia de amigos. E para se embarcar para o Reino lhe ajuntamos os amigos a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer. E aquêle inverno que estêve em Moçambique acabou de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, e foi escrevendo muito em um livro que ia fazendo, que intitulava Parnaso de Luís de camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram. E nunca pude saber no Reino dêle, por muito que inquiri. E foi furto notável. E em Portugal morreu êste excelente poeta em pura pobreza." Graças ao auxílio de Diogo do Couto, pôde Camões deixar Moçambique, embarcado na nau Santa Clara, que chegou a Lisboa em abril de 1570. Apesar de suas muitas andanças pelo Ultramar, voltava a Pátria quase tão pobre como quando dali partira. Quase, porquê, além de um escravo javanês comprado em Moçambique, trazia consigo a única fortuna que lograra amealhar em terras do Oriente: os dez cantos dOs Lusíadas.

Desiludido do mundo e dos homens, foi residir com a mãe na Mouraria, nada mais esperando da vida senão dar à estampa, antes de morrer, o grande poema no qual exaltava a Pátria que tão ingratamente o tratara. Calando, pois, os últimos resquícios de altivez, foi à cata do Conde de Vimioso, D, Manuel de Portugal, pedir-lhe o ajudasse a levar avante seu propósito de publicar Os Lusíadas. Embora não muito entusiasmado com os versos do bardo zarolho e maltrapilho, o fidalgo recebeu-o benignamente, promtendo interceder em seu favor.

Obtida, graças aos bons ofícios do Conde de Vimioso, permissão real para editar o poema, restava agora a Camões obter o imprimatur do Santo Ofício. E êste, como de uso, só foi concedido depois de o censor, Frei Bartolomeu Ferreira, haver lido a obra minuçiosamente, introduzindo-lhe algumas modificações que julgou necessárias para escoimá-las de certos laivos de impiedade. Malgrado êsse expurgo prévio, julgou-se ainda Frei Bartolomeu no dever de "advertir os leitores que o Autor, para encarecer as dificuldades da navegação e entrada dos portuguêses na Índia, usa de uma ficção dos deuses do gentio. (...) Todavia, como isto é poesia e fingimento, e  o Autor, como poeta, não pretenda mais que ornar o estilo poético, não  tivemos por inconveniente ir esta fábula dos deuses na obra, conhecendo-a por tal, e ficando sempre salva a verdade de nossa santa fé, que todos os deuses do gentio são demônios".


A primeira edição dOs Lusíadas veio a lume nos primeiros meses de 1572. Edição modesta, de cem ou duzentos exemplares provàvelmente, mal impressa, cheia de erros tipográficos. Entretanto, se não conseguiu imortalizar seu autor em vida, logrou ao menos arrancar de D. Sebastião, o jovem monarca no qual depositava Camões suas ilusórias esperanças de um Portugal redimido daquela apagada e vil tristeza em que jazia, uma prova de real magnanimidade: a 28 de julho de 1572, era dado ao conhecimento público o seguinte alvará: "Eu El-Rei, faço saber que, havendo respeito ao serviço que Luís de Camões , cavaleiro-fidalgo de minha casa, me tem feito nas partes da Índia por muitos anos e aos que espero que ao adiante me fará, e à informação que tenho do seu engenho e habilidade e à suficiência que mostrou no livro que fêz das coisas da Índia, me praz fazer-lhe mercê de 15.000 réis de tença anual pelo espaço de três anos sòmente, a contar de 12 de março do referido ano, pagos na minha tesouraria à vista de certificado em como reside na minha Côrte."


Embora julgue Aubrey Bell que naqueles tempos era possível viver desafolgadamente com quinze mil-réis anuais, o certo é que a tença concedida a Camões mal o livrava de morrer de fome. Lembra bem Aquilino Ribeiro que, em fins do século XVI, um carpinteiro lisboeta ganhava 160 réis por dia, em média. Ora, como a tença de Camões correspondia a uma diária de 4o réis  - à quarta parte do jornal de um carpinteiro, portanto, - é bem de ver que a liberalidade de D. Sebastião não era lá das maiores.


Com os magros proventos da tença, somados às esmolas recolhidas pelo escravo javanês que trouxera de Moçambique, conseguiu o Poeta, alquebrado pelas muitas vicissitudes, manter-se até 1575, data em que a tença lhe foi renovada. Em 1578 houve outra renovação. Em 1579, atacado pela peste  que então asolava Lisboa, caiu o Poeta de cama, gravemente enfêrmo. Antes de morrer, porém, numa carta dirigida a D. Fracisco de Almeida, Camões, fazendo referência ao recente desastre de Alcácer-Quibir (18), que dera por terra com os sonhos desvairados de D. Sebastião, unia seu fim inglório à ruína igualmente inglória de sua Pátria:"'...enfim, acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela".


Um frade carmelita, Frei José Índio, deixou sôbre os últimos momentos  de Camões um testemunho patético: "Que coisa lastimosa ver-se um grande engenho tão mal logrado! Eu o vi morrer num hospital de Lisboa, sem ter sequer um lençol com que cobrir-se, depois de haver triunfado na Índia Oriental e de haver navegado 5.500 léguas por mar. Que grande aviso para os que, de noite e de dia, vivem a estudar sem proveito, como a aranha a urdir teias para caçar môscas!"


Os restos do Poeta foram sepultados descuidadamente num canto qualquer do cemitério da igreja de Santana, e, sôbre o seu túmulo provável, mandou D. Gonçalo Coutinho, anos mais tarde, erigir uma lápide, cujo epitáfio dizia, lacônica e dramàsticamente:


Aqui jaz Luís de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo: viveu pobre e miseràvelmente e assim morreu no ano de 1579.


VI
Todos quantos padeceram, no curso secundário, as torturas de análise lógica do primeiro canto dOs Lusíadas, devem sentir, pela obra de Camões, justificada aversão. A gramática é, de fato, inimiga da Poesia: enquanto esta nos convida amàvelmente ao devaneio, aquela nos constrange, severa, ao raciocínio, e tal constrangimento acaba por converter a fina arte de Camões num enfadonho quebra-cabeças de sujeitos, predicados e complementos.


Vencida, porém, a fase escolar, convém reler Camões, não mais pelo amor da Grmaática, mas pelo amor da Poesia. Então, sim, e só então, é que se poderá descobrir o verdadeiro significado de uma obra cujos encantos nem a usura do tempo nema aridez da Filologia lograram de todo comprometer.


É aconselhável começar essa releitura pelos sonetos pelos sonetos, pois foi nêles que, esquecido da sua sapiência de letrado - sapiência que, sobrecarregando Os Lusíadas de difusas alusões históricas e mitológicas, torna-lhes a leitura tão difícil quão penosa-, alcançou o Poeta uma nitidez de escritura e uma elegância de pensamento verdadeiramente inexcedíveis. Nos sonetos, ademais, sente-se, de imediato, aquêle equilíbrio apontado por José Régio como o triunfo supremo da arte camoniana: o "equilíbrio, só pelos maiores artistas alcançado, suma extraordinária capacidade de expressão exercendo-se sôbre uma personalidade humana extraordinária".


O Camões dos sonetos e, sobretudo, o Camões amoroso. É o Camões amoroso foi bem um homem da Renascença, época na qual o sensualismo pagão e a espiritualidade cristã andavam juntos. Tendo conhecido exuberantemente a realidade física do amor, Camões não ficou, todavia, a ela confinado: buscou antes, pelo pensamento, elevar-se âquele conceito platônico segundo o qual a duradoura união espiritual dos amantes avulta sôbre a sua fugaz união física, a ponto de transformar-se o amador na cousa amada. Conceito  magistralmente expresso na primeira quadra de um soneto antológico:


Transforme-se o amador na cousa amada,
Em virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.


É bem de ver que êsse muito imaginar não era o de quem se consolasse em viver, pela fantasia, quanto não pudera viver na realidade. A aventurosa existência de soldado, as andanças pelo mundo, os percalços da vida atribulada - tudo serviu para fornecer ao Poeta um rico cabedal de experiência, muito embora êle tivesse de pagá-lo com sangue, suor e lágrimas. Mas não fôra isso, e talvez aquela "extraordinária capacidade de expressão", referida por Régio, tivesse de se exercer sôbre anêmicas figurações intelectuais, empobrecendo assim uma arte cuja grandeza reside precisamente na conjunção de uma vida rica de seiva e de uma poderosa imaginação transfiguradora. É nos sonetos de índole autobiográfica que melhor ressalta essa conjunção. Atente-se, por exemplo, para a fôrça expressiva e para a verdade humana dêstes versos:


Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor sòmente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Êste meu duro Gênio de vinganças!



A par dos sonetos, a lírica de Camões inclui elegias e canções de nobre e comovida beleza, assim como deliciosas trovas nas quais, utilizando-se da redondilha - o metro breve dos cancioneiros populares, - traçou o Poeta quadros idílicos de grande encanto. Da redondilha valeu-se igualmente Camões para compor um dos seus mais significativos poemas: o Sôbolos Rios, sofrida meditação sôbre a inanidade das ambições humanas:


Um gôsto, que hoje se alcança,
Amanhã já o não vejo:
Assim nos traz a mudança
De esperança em esperança
E de desejo em desejo
Mas em vida tão escassa
Que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte, 
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!


VII
Foi, pois, de matéria ainda imperfeitamente épica que se valeu Camões  para compor Os Lusíadas. Se bem o chamamento do mar e o fascínio das terras distantes - dois dos leitmotiv dOs Lusíadas - já fôssem, no século  XVI, elementos do folclore lusitano, não o eram ainda aquêles barões assinalados cujos feitos se propôs o Poeta a espalhar por tôda parte.Daí a inexistência, nOs Lusíadas, de heróis individuais comparáveis aos soberbos guerreiros dA Ilíada, sempre tão vivos e convincentes. O  fato se explica: Homero trabalhara a História já convertida em Mito; Camões tinha de haver-se coma história ainda em estado de crônica palaciana.


Os Lusíadas são, portanto, uma epopéia sem heróis: menos que os reis cruzados, o Nuno fero, o ilustre Gama, o Albuquerque terríbil ou o Castro forte, o poema celebra o peito ilustre lusitano, vale dizer, a Pátria  em sentido coletivo. E, como diz bem Antônio José Saraiva, cuja interpretação estamos aqui seguindo, "à falta de heróis humanos, serve-se (Camões) dos deuses celebrados nas epopéias da Antiguidade e constrói, com os seus diversos caracteres e paixões, uma intriga que é o verdadeiro enrêdo do poema".  Os heróis de carne e osso dOs Lusíadas, isto é, os fidalgos portuguêses por cuja sorte se digladiamos deuses do Olimpo,  em vez de agirem, como compete a heróis, contenham-se, via de regra, em recitar os longos discursos que o Poeta lhes põe na bôca fazendo praça de sua erudição e maestria (19) verbal.


A essas tiradas retóricas, no entanto, o leitor sensível preferirá os episódios líricos com que Camões, por amor, da variedade, entremeou sua historiografia rimada. O interlúdio de Inês de Castro, por exemplo, cale, sozinho, por tôdas as falas de Vasco da Gama:


Estavas, linda Inês, posta em sossêgo,
De teus anos colhendo doce fruito
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
 



Igualmente admiráveis são os passos em que, esquecido por momentos da sua fúria grande e sonorosa de porta oficial, faz Camões ouvir a voz de fraco humano, de homem vivido e sofrido, a quem os infortúnios ensinaram a aborrecer o desejo de mando e a ambição de riqueza:


Ó glória de mandar! ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gôsto, que se atiça
C'ua aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades nêles experimentas!



Nesses Camões que, acima da fatuidade dos grandes de seu tempo, coloca, confusamente embora, o "tenaz esfôrço cotidiano para instaurarmos sociedades de maior justiça, semelhantes à que Cristo nos mandou fundar" - a frase é de Antônio Sérgio, - está certamente o Camões aut~entico.  E, por autêntico, mortal.


Fonte: PAES, José  Paulo. Os Poetas. Coleção Vidas Ilustres. São Paulo: Editora Cultrix, 1960. P. 67-87.


Notas:
(14) Estrofe composta de oito versos de dez sílabas cada, rimadas entre si.
(15) Irmã de D. João III,  então Rei de Portugal.
(16) Ocupado por D. João III, com cuja noiva se havia casado D. Manuel.
(17) Funcionário encarregado de arrolar e provisòriamente administrar os bens de pessoas falecidas ou desaparecidas. Espécie de juiz de órfãos.
(18)Batalha travada pelos portuguêses contra os mouros, em agôsto de 1578. Os portuguêses foram derrotados, e as enormes despesas dessa frustrada emprêsa de guerra, com arruinarem as finanças do Reino, foram causa indireta da perda da sua independência.
(19) A palavra mestria na obra, p. 86,  foi corrigida para maestria por esta digitadora.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Itaú Internet, mensagem falsa


Odete Soares Rangel

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

“Miss Dollar” e “A parasita azul” representando a primeira e segunda fases de Machado de Assis

Odete Soares Rangel

O objetivo é rever a primeira e a segunda fase de Machado de Assis através dos contos “Miss Dollar” e “A parasita azul”.

“Miss Dollar”, foi escrito na época em que o casamento podia ser um negócio, o conflito estava centrado no amor de Margarida e Mendonça que desejavam casar e depois consumar o amor. Machado tenta trazer que amor e casamento devem vir juntos para propiciar felicidade. O autor se aproxima e se afasta do leitor, trabalha muito com a imaginação deste, o qual terá muitas expectativas a respeito de quem será Miss Dollar. O conto se encerra com a morte de Miss Dollar, deixando implícito que sua missão havia sido cumprida, aproximou os dois enamorados. 

Em “A parasita azul” é época da revolução industrial na Europa, no Brasil término da Guerra do Paraguai. Camilo chega ao Brasil, mas sua cabeça continua na França, ele sente falta de Paris. O dilema inicial é o da cultura brasileira. Machado debruça-se, melancolicamente, sobre o Brasil e a realidade das pessoas, cuja perspectiva de existência é bastante negativa. A relação amorosa não tem a pureza romântica, Machado coloca a possibilidade de conciliar o amor com o dinheiro, como no caso de Camilo e Isabel, esta o amava desde criança, ele de pouco tempo e presume-se que seu amor seja mesmo pelo dinheiro de Isabel. Nos contos há uma conciliação entre situações conflitantes, próximo da realidade. Hoje ainda existem muitos casamentos por conveniência em detrimento do amor verdadeiro.

O que mudou da primeira fase da prosa machadiana para a segunda, foi o fato de Machado de Assis expressar-se de forma velada, implícita, tendo passado a fazê-lo livremente, abordando, diretamente, quaisquer assuntos com mais realismo, como por exemplo, a escravidão e o amor entre classes diferentes.

“Vale mais imaginar que descrever as torturas daquela primeira noite de noivado. Mas aquilo que o homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão”. Essa citação de Machado em “Miss Dollar” é um dos tantos exemplos de sua forma de falar indiretamente sobre os acontecimentos. Contrariamente, em “A parasita azul”, p. 186, Machado diz que “Alguma leitora menos exigente, há de achar singular a resolução de Isabel, ainda depois de saber que era amada. Também eu penso assim; mas não quero alterar o caráter da heroína, porque ela era tal qual a apresento nestas páginas”, mostrou isso diretamente no decorrer do texto.

O homem como objeto do homem e a figura feminina eram assuntos recorrentes na obra de Machado, vamos viajar nesse universo para entender um pouco mais.

O HOMEM COMO OBJETO DO HOMEM

O apego ao dinheiro ou a falta deste pode reduzir o homem a objeto de outro homem. Em “Anedota pecuniária” Falcão era ávido por lucro, embora tivesse muito dinheiro e uma relação erótica com este, vivia de migalhas e não hesitou em vender as sobrinhas Jacinta por dez contos de réis e Virginia por uma coleção de moedas. Soluciona a questão do dinheiro, mas é tomado pelo terror da solidão. Seu conflito é o apego às sobrinhas e ao dinheiro, optou pelo último, tornando-se seu escravo e senhor. 

Em “Entre santos” Sales tem dinheiro, adora contemplá-lo, mas leva uma vida indigna. Decide pagar a cura de sua enferma esposa, a São José, com uma perna de cera. Como esta lhe custaria dinheiro, substituiu-a por orações. Chegara até a libertar o cadáver de uma escrava para que fosse enterrada como indigente, assim não desembolsaria dinheiro com os funerais. 

No conto “O empréstimo”, Custódio era ambicioso, mas não tinha dinheiro, tampouco aptidão para ganhá-lo. Era um verdadeiro caipora e vivia de esmolas. Um anúncio instigou-o a associar-se a uma empresa estrangeira, para tanto necessitaria 5 contos. Tentou, sem êxito, obter o empréstimo junto ao tabelião Vaz Nunes que acabou dando-lhe apenas 5 mil-réis. Esse valor garantiu seu jantar, por isso proporcionou-lhe uma ímpar felicidade.

Nos três contos, o dinheiro não circula, mas o apego a ele, o prazer de tê-lo e admirá-lo, é o que fica aparente. Esse não é gerado pelo trabalho, nem o gerará tampouco. É objeto de desejo no sentido de satisfazê-lo, no primeiro conto, com a venda das sobrinhas, desejava salvar o dinheiro perdido no mau negócio e aumentar seu patrimônio, respectivamente. No conto seguinte era a cura da esposa através de ação não financeira, enquanto no último o desejo da sociedade se dissipou uma vez que realizou o desejo de jantar, embora sejam coisas de proporções tão distintas, mas certamente de semelhante importância naquele momento. Em todos os contos, triunfa o mais forte, cuja sobrevivência está garantida, alienam-se à necessidade do outro, mas o tornam objeto de si pela dependência.

No caso dos que não o possuem, são aniquilados, são reduzidos a objeto de outro homem pela própria necessidade, ou seja, na busca de satisfação dos seus desejos dependendo de outrem, cuja situação chega a ser humilhante.

A FIGURA FEMININA

Machado se centrava no público feminino, mostra os contrastes e os conflitos sem rebaixa-las. A maioria das leitoras casadas, ricas, de classe média. Ele classifica-as em duas classes: Elegantes, finas e superficiais e as ignorantes sem impulsos, por isso mesmo sê desamparadas, não possuiriam iniciativas. 

Ele gostava do detalhe revelador omisso em cada um, mas que não fugiam a sua astúcia. Abordava momentos do cotidiano, situações triviais mas reveladoras de um paradoxo, a vivência através de aparências, de máscaras. Ele tomava as coisas tradicionais, misturava-as ao realismo, as adaptava ao que queria calcado na ironia, no riso dissimulado, como exemplo podemos citar o personagem Joaquim Fidélis. 

Em “Primas de sapucaia” a personagem Adriana era casada e infiel (idealizada como jovem, ardente e amorosa, autêntica, bonita, fascinante); no conto “Trio em lá menor” temos Maria Regina que é desmiolada, esquisita, ama e é amada (idealiza os homens e se decepciona com a realidade, ela vê no mundo fora o que projeta dentro de si), e em “Singular ocorrência” Marocas é nossa personagem pobre, analfabeta e prostituta. 

Existem figuras de menor importância: as primas Claudina e Rosa que de empecilho transformam-se em salvadoras do primo, e a mulher de Andrade, pessoa sem expressividade, a traída. 

Comparando as três personagens principais, pode-se dizer que todas elas, sentimentalmente, não se transformaram. Adriana é dominadora, rompe com os padrões da época pela destruição, pois sabe que possui uma relação destrutiva, mas não consegue se afastar; Maria Regina vai oscilando entre a imperfeição dos dois pretendentes, mas nunca decidirá por um deles, não se modifica e acaba perdendo ambos; Marrocas, talvez seja a mais importante, haja vista ser a única prostituta mostrada na ficção machadiana, cujo ponto crítico dá-se quando é motivada a levar para sua cama um homem qualquer e conta com o acaso para Andrade não descobrir. Representa a ambiguidade, pois não podemos afirmar se traiu ou não Andrade, mas tornou-se fiel e aprendeu a ler. Segundo o ponto de vista de Machado as mulheres deviam ser instruídas e não se limitar às tarefas do lar.

Vale a pena ler os contos, se você tiver interesse, estão contidos nas obras:  

Assis, Machado de – “Miss Dollar” Contos Fluminenses. Obra Completa, volume II. Rio de Janeiro, José Aguilar Editora, 1974, p. 27-44.

Assis, Machado de – “A parasita Azul”. Papéis Avulsos. Obra Completa, volume II. Rio de Janeiro, José Aguilar Editora, 1974, p. 161-193.

domingo, 4 de setembro de 2011

A Aia de Eça de Queirós

Odete Soares Rangel

"Era uma vez um rei, moço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua rainha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.


A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho e conquista e de fama, começava a minguar – quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do sangue seco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, traspassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio.

A rainha chorou magnificamente o rei. Chorou ainda desoladamente o esposo, que era famoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela força e forte pelo amor.

Desses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a realeza por causa dos seus tesouros, e que havia anos vivia num castelo sobre os montes, com uma horda de rebeldes, à maneira de um lobo que, de atalaia no seu fojo, espera a presa. Ai! a presa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guizo de ouro fechado na mão!

Ao lado dele, outro menino dormia noutro berço. Mas este era um escravozinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava. Quando a rainha, antes de adormecer, vinha beijar o principezinho, que tinha cabelo louro e fino, beijava também por amor dele o escravozinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Somente, o berço de um era magnífico e de marfim entre brocados – e o berço do outro pobre e de verga. A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, por que se um era o seu filho – o outro o seu rei.

Nascida naquela casa real, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. Pertencia, porém, a uma raça que acredita que a vida da terra se continua no céu. O rei seu amo, decerto, já estaria agora reinando num outro reino, para além das nuvens, abundante também em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pajens tinha subido com ele às alturas. Os seus vassalos que fossem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retornar em torno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no céu como fora na terra, e feliz na sua servidão.

Todavia, também ele tremia pelo seu pricipezinho! Quantas vezes, com ele pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos lentos que correriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel , de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanjes da sua horda! Pobre principezinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado – era para ele que seus braços corriam um ardor mais feliz. Esse, na sua indigência, nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, na verdade, era para ele mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela enegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humilde ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores – dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as mãos do seu príncipe.

No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher entre as mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. E a rainha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço de seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. Só a ama leal parecia segura – como se os braços em que estreitava o seu príncipe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpor.

Ora, uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu catre, entre os seus dous meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergéis reais. Embrulhada à pressa num pano atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu – o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! Então, rapidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de verga – e tirando o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no berço real que cobriu com um brocado.

Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobe a cota de malha, surgiu à porta da camara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou – correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bolsa de ouro, e abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.

O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficará imóvel no silêncio e na treva.

Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam como bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a rainha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caíu sobre as lajes, num choro, despedaçada. Então calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de verga... O príncipe lá estava, quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os cabelos de ouro. A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.

E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porém, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de arqueiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa poça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá ficara também, envolto num manto, já frio, roxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado!... Assim tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas – quando a rainha, deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o príncipe que despertara.

Foi um espanto, uma aclamação. Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria extática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu coração... E dentre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com súplicas de que fosse recompesada, magnificamente, a serva admirável que salvara o rei e o reino.

Mas como? Que bolsas de ouro podem pagar um filho? Então um velho de casta nobre lembrou que ela fosse levada ao tesouro real, e escolhesse dentre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesouros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse...

A rainha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a Câmara dos Tesouros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam num respeito tão comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lajes. As espessas portas do Tesouro rodaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de ouro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, cintilavam refulgiam os escudos de ouro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo ah, lento e maravilhado, passou por sobre a turba que emudecera. Depois houve um silêncio, ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se movia... Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido para aquele céu que, além das grades, se tingia de rosa e de ouro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava decerto, e procurava o seu peito!... Então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua mão aberta. Que jóia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis, ia ela escolher?

A ama estendia a mão – e sobre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um velho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia uma província.

Agarrara o punhal, e com ele apertado fortemente na mão, apontando para o céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a rainha, a multidão, e gritou:

- Salvei o meu príncipe, e agora – vou dar de mamar ao meu filho!

E cravou o punhal no coração".

Você encontra uma síntese e uma análise do conto, bastante interessantes nos endereços indicados abaixo:


http://pt.shvoong.com/books/novel-novella/1775458-aia/#ixzz1X5Rcx6tT
Leia-os, vamos valorizar o trabalho daqueles que disponibilizam seu tempo e suas habilidades para atividades culturais e educacionais.

Parabéns aos autores!

sábado, 3 de setembro de 2011

Apelo de um excepcional

Odete Soares Rangel

Apelo de um excepcional. Que este apelo toque nossos corações. E que passemos a olhar esse nosso irmão como um igual, nos despindo dos preconceitos e das indiferenças. Ele não é diferente, ele é especial, amoroso, certamente  tem muito a nos ensinar. Vamos aceitá-lo como ele é, tratá-lo com dignidade, mas sobretudo com muito amor.

Apelo de um excepcional

Olha para mim não tenhas receio
Fala comigo mesmo que penses não te poder ouvir
Sorri para mim mesmo que não consiga te ver
Ensina-me mesmo que pareça não te entender

Tenta vale a pena
Tenta mais um pouco,
Pois chegarás a me aceitar
E aprenderei a te amar.

Fonte: Recebido por e-mail, autoria desconhecida.