PLAYLIST

terça-feira, 17 de junho de 2014

Coisas da vida de Renoir Silva, nasce um novo escritor!

Por Odete Soares Rangel
SILVA, Renoir. COISAS DA VIDA. 
Produção Independente, 206 págs. 
         "Escrevo sem pensar tudo o que o meu inconsciente  grita. Penso depois, não só para corrigir, mas para  justificar o  que escrevi 
 (Mario de Andrade)

O Livro "COISAS DA VIDA" de Renoir Pereira da Silva é constituído de poemas, contos, crônicas e narrativas. Não estou aqui fazendo um ensaio ou uma análise técnica sobre ele, mas comentando algumas particularidades que me levaram adiante na leitura do mesmo. A leitura é de fácil entendimento, devido ao encadeamento das ideias e dos diálogos, e da linguagem acessível, cujo ritmo e fluidez podem ser considerados coerentes.

Renoir diz que escrever não é inspiração, mas sim transpiração. Ele crê que para escrever um bom texto, é preciso expandir os conhecimentos e aprender muito. Minha leitura dessa afirmação é que o escritor precisa muito mais do que inspiração para redigir um bom texto, como por exemplo: ter domínio dos gêneros literários, das técnicas discursivas, da gramática, especialmente, da semântica e da sintaxe, da ortografia, das figuras de linguagem, da intertextualidade, dos mitos e lendas, entre outros... 

Sim, para escrever um bom texto ou se dizer algo é preciso refletir sobre, dominar o discurso. O escritor sempre entende o que ele quer dizer no seu texto, mas é preciso mais do que isso. Qualquer leigo que o leia, precisa entender a mensagem que ele quis transmitir. A habilidade de "costurar" os diálogos, de forma que contenham coesão e clareza, e não perca o foco, para mim é um dos fatores mais importantes na escrita.  E no geral, parece que Renoir cumpriu essa máxima. (Grifo meu)



Lembro quando iniciei a escrever um blog por brincadeira (http://odeter.blogspot.com.br), queria apenas escrever. Os primeiros textos simplesmente os escrevia. À medida que eu ia escrevendo, lia e relia o texto muitas vezes, e a cada volta nele, mudava palavras, às vezes sentenças inteiras. Já não queria apenas escrever, mas sim que meu texto fosse bom, inteligível e interessante para os leitores. Aí comecei a demorar muito tempo para criar o texto e achava isso ruim. Até que entendi que um texto é uma obra de arte, precisa ser lapidado, primoroso, precisa ter mais do que palavras, e o tempo gasto na escrita não importa. O que importa de fato é o resultado.
Então, Renoir, assim são os escritores! Eles estão sempre aprendendo e evoluindo. Por consequência, tornam-se mais exigentes com os seus próprios textos. Eu posso ter escrito um texto curto ou longo, se não gostei, volto, e busco modificá-lo até que me sinta confortável com ele. Fica a dica para você, olha a ousadia!
Ele faz uma escrita instigativa, com um quê de mistério, deixa um questionamento para o leitor como em "Não existe receita para ser um bom escritor, mas existem métodos." Para quem não sabe quais são esses métodos, e quiser entender bem o sentido, deverá recorrer a pesquisas. O suspense em "De repente gritei "pai, você não está morto? "E ele disse "sim, meu filho, eu estou", é mais um dos artifícios do escritor para persuadir o leitor a continuar tendo interesse na leitura.

Ele utiliza muito o recurso de metáforas, como nas palavras sublinhadas na sentença abaixo, o que na minha visão,  sempre acrescenta atratividade ao texto. "Abri os olhos, a moringa quebrada ao meu lado, e estava tudo azul e o sol mais malvado do que nunca."

Renoir parafraseando "E agora José?" de Carlos Drummond de Andrade, criou um  texto contemporâneo e muito interessante. Não deixe de lê-lo. Leia também o exercício contido no blog da professora Maria Virgínia.<http://desmontandotexto.blogspot.com.br/2009/09/e-agora-jose-drummond.html. > Muito bom o trabalho dela! 

Os textos de Renoir são permeados pelos temas professor, aluno, homossexualismo, preconceito, relações familiares, traição, padres, etc.

Na sentença “Para a vizinha já eram favas contadas”, temos um provérbio. Esse significa que era coisa certa, eles tinham outras mulheres. Segundo o pesquisador Câmara Cascudo, antigamente, usava-se favas brancas e pretas para votar, significando sim ou não. Cada votante colocava o voto (fava) na urna. A apuração era feita pela contagem dos grãos, e seria eleito quem tivesse o maior número de favas brancas.

Os números pares (dois-duas), são uma constante no livro COISAS DA VIDA. Em geral, representam os personagens homemXmulher, homemXhomem, mulherXmulher, professorXaluno, patrãoXempregado, padreXnarrador, padreXprefeito, entrevistadorXentrevistado, médicoXprofessor, etc.   Há um provérbio chinês que diz que "boas coisas vêm em pares".  Acertou Renoir então!

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

[...]

Nesse, há uma repetição exagerada de Tinha uma pedra no meio do caminho, que carrega-se de sentido inesperado, como dizia Haroldo de Campos.  Vemos que a palavra pedra aparece em ambos os autores. Pedra pode ser considerada um obstáculo, uma frustração.  Para Andrade seria o obstáculo, para Renoir a frustração.

Renoir usa com frequência palavras seguidas de palavras, sem pontuação entre elas, especialmente nos poemas, como no Poema de Palavras (pg. 37), “Camisola ausência loucura.”  Oswald de Andrade no poema Canto de regresso à pátria usou esse recurso Ouro terra amor e rosas .

Na página 43, ele usa o recurso da intertextualidade, contrastando os personagens das obras o Pagador de promessas de Dias Gomes e Vidas Secas de Graciliano Ramos.  Também aborda Vamos soltar os demônios (ou Amor em Campo Minado), peça escrita por Dias Gomes em 1969, após o golpe militar. Lembrem-se que nessa, também são referidos padre, traição, pares (personagens Sérgio Pontes, Nara Pontes, Dr. Moura e Vera), garçonieri, e implicitamente sexo.

Na página 49, ele faz um acróstico sobre a vivência professor X aluno, mas não os personagens comuns do dia-a-dia, mas o aluno que aprende e o professor que se especializa, que sai da sua zona de conforto, que interage com o aluno, que é líder, mas também amigo. Enfim, o narrador ama  o que faz e valoriza o produto final (propiciar o aprendizado). Quem conhece Renoir sabe que nesse poema, está retratado o seu modo de agir.

Minha surpresa veio no poema  O brasileiro lê mal (págs. 50-51). Isto porquê temos o mau hábito de preconceber pessoas, situações e fatos. Ao ler o título, imaginei que fosse tratar de um problema sério no Brasil que é o analfabetismo funcional, mas na verdade tratou-se de racismo e preconceito, da forma como os brasileiros vêem uns aos outros, da maneira errônea e discriminatória como julgam seus compatriotas.

O título do texto Confusão (págs. 52-53), me parece adequado ao texto, pois reflete bem a descontinuidade de assuntos, (prostituta, sinceridade e modéstia, guerra e paz, curso superior, lágrimas, sal e comidas, professor e aluno, sede e mar.  Nas sentenças abaixo, temos a marca da incoerência. Na primeira, entre as atitudes da pessoa que busca saber, mas mostra-se ignorante por se dizer católica, pois ser católico está colocado como uma ignorância. Na última,  o morrer de sede no meio de tanta água, é uma alusão a água do mar que não é potável, portanto não se bebe. 
  • “Pessoas fazem curso superior, lêem bastante, e continuam dizendo que são católicas, que estranho.” pg.52
  • “É engraçado morrer de sede no meio do mar. ” Pg. 53

No texto Carta ao Padre (págs. 66-68), o narrador José da Silva faz uma crítica feroz à igreja católica, considerando-a podre e hipócrita.  Diz ele que se envergonha de ser católico. Quer me parecer que ele não aprova o falso moralismo pregado, pois muito tem sido divulgado na mídia que realmente envergonha e nos faz repensar o papel da igreja católica hoje. Mostra-se uma instituição movida pelo aspecto monetário e por abafar escândalos, em detrimento da religiosidade, da  humanitariedade e da transparência. Vejam que o narrador se dirige diretamente ao leitor.

Muitas das narrações do escritor Renoir acontecem em primeira pessoa, como exemplos cito os textos:  EU, Papo reto, No consultório e Carta ao Padre. Nesses, o narrador participa ativamente dos fatos narrados, seja ele ou não o protagonista da história.

Na página 31, no texto “O João perdeu o emprego”,  o narrador em 1a pessoa fala do seu dilema de ter sido despedido, interagindo na narração. “Eu havia sido mandado embora [...].  Depois, ele continua dialogando quando pede que o leitor opine sobre os fatos  narrados. “(Você concorda com a velhinha, meu caro leitor?) (Qual é a sua opinião meu senhor?) (Você concorda com o padre, meu caro leitor?) ( Você concorda com o Marcelo. Meu caro leitor?)”

Em Papo reto (Pg. 89), retrata um diálogo entre chefia e subordinado, na hora em que este último pede demissão. O escritor faz uma denúncia sobre problemas recorrentes no mercado de trabalho, no Brasil. Entre eles, estão: a falta de diálogo, o abuso de autoridade, as falhas na liderança, assim como a dificuldade das chefias em ouvir e aproveitar as idéias dos colaboradores,  valorizar suas contribuições e aproveitar suas competências e habilidades para promovê-lo na empresa. Eles se colocam num pedestal, como se fossem os donos da razão.  O narrador critica, ainda, o banco de horas. Esse virou uma prática comum em todas as empresas hoje, mas até onde sei é uma política da empresa negociada com os colaboradores. Ele fala da animalização do ser humano, cujos sentimentos são ignorados. E acaba o texto com a chefia dizendo: “Deixa a porta aberta”, deixando implícito que vai melhorar a sua convivência com os subordinados, vai começar a ouvi-los.

No texto EU (Pg. 94), o narrador manifesta-se contrário às convenções sociais que ferem o livre arbítrio de cada um. E de como essas regras são manipuladoras, tornando o homem um perfeito idiota, e fazendo com que ele ignore seu semelhante na hora da necessidade, mas cumpra as convenções, ainda que por obrigação. Elas são tão fortes, que o narrador, embora consciente, continuará  tendo atitudes que contrariam sua vontade.

Alguns vocábulos do tipo Panducas ou expressões usadas como Estavam até comendo cabeças-de-negro me eram desconhecidos. Além de recorrer a pesquisas, precisei perguntar ao escritor Renoir os significados. Segundo ele me disse, a primeira refere-se a uma moeda por ele inventada. A segunda, é um tipo de doce. Há outros termos como  Stradivarius (instrumento de corda produzido por membros da família Stradivari) que não serão entendidos por não serem do cotidiano.  Assim, fica minha sugestão para as próximas edições da obra, acrescentar vocabulário e explicações de termos raros para facilitar a compreensão da leitura.

Eu teria dezenas de comentários positivos para fazer sobre os textos de Renoir. Mas vou deixar você ler o livro dele, e descobrir os seus talentos.

Seu conto "Os desejos secretos" (leitura para adultos) traz diálogos e sentenças interessantes que vão prendendo a atenção do leitor, aguçando sua curiosidade e fazendo com que continue lendo a história, para conhecer seu final. Veja algumas delas:
"Não somos sinceros na maior parte do tempo, se fôssemos, haveria o caos.

Laura também tinha uma enorme vontade de realizar alguns desejos sexuais.

-Está bem, mas me desamarra e tire essas algemas elas estão apertadas Ah, sem filmar! Falou o marido.

Após uma longa conversa, Laura vestiu sua camiseta e se despediu da amiga.

Laura soube enxergar muitas qualidades no amigo, mas o corpo dele a encantou.

Nas crises, é muito fácil mudar de quarto, mudar de casa, mas você pouco faz para mudar suas atitudes.

-Agora sou mulher livre, independente, e gostaria de fazer algumas coisas que tenho vontade, certas coisas fogem das regras sociais, por isso as pessoas não as realizam, e ficam como desejos reprimidos.

Laura escreveu um livro...."

Gostou?  Então adquira o livro e leia-o! Descubra o desfecho do conto. Você estará contribuindo com a cultura e com a divulgação de novos escritores. O preço está bem em conta.

Conheça um outro texto do autor.



TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por Renoir Pereira da Silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em anexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.


SILVA, Renoir. COISAS DA VIDA. TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS! Produção Independente, pág. 75




2 comentários:

Renoir disse...

Olá, que maravilha ler essas palavras de alguém que sabe falar sobre "letras". Estou realmente contente em saber que você gostou muito do meu livro. Fico feliz também em ver como você se dedicou para escrever essas palavras a respeito do meu livro. MUITO OBRIGADO.

Odete Soares Rangel disse...

Olá Renoir,

Obrigada a você,pela coragem de escrevê-lo e de publicá-lo, pois é uma tarefa árdua. Também por ter me possibilitado lê-lo e escrever sobre ele, pois retomei algo que gosto de fazer. Espero que escreva muitos outros e que possamos discutir sobre eles muitas vezes. Obrigada pelo seu feedback, é muito bom ter o reconhecimento do nosso trabalho também! Gr abraço,