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domingo, 3 de junho de 2012

A palerma

Odete Soares Rangel

 Tchékhov em roupas de campo
Wikipédia
O conto A  palerma  de Anton Tchékhov  vai nos conduzindo por uma relação difícil entre patrão e empregado, na qual a coitada da Iúlia era submissa, servil, e não sabia protestar.

O autor vai delineando o sujeito como um patrão  mercenário e poderoso, que sem dó, coloca a governanta como a subalterna que ela é,  mas também como uma irresponsável que deixa de cumprir seus horários de trabalho por motivos banais, deixando os patrões sem a execução das tarefas por longos períodos. Humilhava-a com as revelações do que teria descontado e por qual razão, ela tímida até esboçava discordar, mas acabava cedendo. "- Então, está bem... Que seja."

Somente ao final do conto ele revela sua real intenção: após submetê-la a uma cruel lição como para conscientizá-la das suas falhas, paga-lhe todos os valores a que teria direito, caso tivesse trabalhado o período integralmente. E assim, coloca-se no papel do justo e humano, pede desculpas a Iúlia e quase lamenta a facilidade com que uma pessoa torna-se  poderosa nesse mundo e o que pode fazer com esse poder, como se estivesse arrependido da sua atitude. 

Se você quiser saber sobre o autor, acesse http://educacao.uol.com.br/biografias/anton-pavlovitch-tchekhov.jhtm.

Leia o conto, é muito interessante.

"Dias atrás mandei chamar a governanta dos meus filhos, Iúlia Vassílievna, ao meu gabinete. Precisávamos acertar as contas.
- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - eu disse. - Vamos acertar nossas contas. A senhora provavelmente necessita de dinheiro, mas tem cerimônia demais para pedir... Vamos lá... Nós combinamos trinta rublos por mês...
- Quarenta...
- Não, trinta... Eu tenho aqui escrito... Eu sempre paguei trinta para as governantas... Então, a senhora ficou aqui dois meses...
- Dois meses e cinco dias...
- Dois meses exatos... Eu tenho aqui anotado. Portanto, a senhora tem a receber sessenta rublos... Temos que descontar nove domingos... pois a senhora não estudou com Kólia nos domingos, somente passearam... e houve ainda três feriados...
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e começou a repuxar os babadinhos de sua roupa, mas não disse uma só palavra...
- Três feriados... Consequentemente, vamos tirar doze rublos... Durante quatro dias Kólia ficou doente e não teve aulas... A senhora estudou só com Vária... Três dias a senhora teve dor de dente e minha esposa permitiu que a senhora não desse aula depois do almoço... Doze mais sete - dezenove. Subtraindo, restam... hum... 41 rublos. Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou vermelho e cheio d'água. Seu queixo tremeu. Ela deu uma tossida nervosa, assoou o nariz, mas - nem uma palavra!
- Na véspera de ano-novo a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. Vamos tirar dois rublos... A xícara custa mais do que isso, era herança de família, mas... deixa pra lá! Não vamos fazer questão disso! Adiante: devido à sua falta de atenção, Kólia subiu numa árvore e rasgou seu casaquinho. Vamos tirar dez... A arrumadeira, também devido à sua falta de atenção, roubou umas botinas de Vária. A senhora deveria cuidar de tudo. É para isso que recebe um salário. Então, vamos tirar mais cinco... No dia sete de janeiro a senhora pegou adiantado comigo dez rublos...
- Eu não peguei! - sussurrou Iúlia Vassílievna.
- Mas eu tenho aqui anotado!
- Então, está bem... Que seja.
- De 41 vamos subtrair 27 - restam catorze.
Os dois olhos de Iúlia Vassílievna encheram-se de lágrimas... No seu belo e alongado narizinho apareceram gotas de suor. Pobre menina!
- Eu só peguei uma vez - disse ela com voz trêmula. -- Peguei com a sua esposa três rublos... Não peguei mais...
- É mesmo? Ora, mas isso não está anotado! Tirando três de catorze, sobram onze... Aqui está o seu dinheiro, caríssima! Três... três... três... um... um... Tenha a bondade de receber!
E lhe entreguei onze rublos... Ela pegou o dinheiro e com os dedinhos tremendo meteu-o no bolso.
- Merci - sussurrou ela.
Levantei-me de um salto e comecei a caminhar pelo gabinete. Estava indignado.
- Merci por quê? - perguntei.
- Pelo dinheiro...
- Mas eu a roubei, com os diabos, eu a assaltei! Acabei de roubá-la! Por que merci?
- Nos outros lugares eles não pagavam nada...
- Não pagavam? Então não é de se estranhar! Eu estava brincando com a senhora, estava lhe dando uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os oitenta rublos! Estão aqui preparados, neste envelope! Mas é possível ser assim tão pateta? Por que a senhora não protesta? Por que fica calada? Será que neste mundo é possível não ser atrevido? É possível ser tão palerma?
Ela deu um sorriso azedo e eu li no seu rosto: "É possível!".
Pedi desculpas pela cruel lição e, para sua grande surpresa, entreguei-lhe todos os oitenta rublos. Ela disse um merci tímido e saiu... Fiquei olhando quando ela se afastava e pensei: "Como é fácil ser poderoso neste mundo!".

Fonte: TCHÉKHOV, P. Anton. A CORISTA & OUTRAS HISTÓRIAS. Tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares e Tatiana Belinky.  - Porto Alegre, RS:LP&M,  2012. 64p. Coleção L&PM Pocket

2 comentários:

Anônimo disse...

Qual ea apresentacao,climx,desenvolvimento e desfecho. Desse texto ajudem

Odete Soares Rangel disse...

A palerma (governanta de um senhorio) é convocada ao gabinete dele para acertar seu pagamento. Ele usa vários argumentos para aplicar descontos no seu merecido salário, dando-lhe uma lição de moral ao final.

O autor do conto faz uma crítica as relações de poder e a submissão, pois mesmo não concordando com os descontos ela se calava e ainda agradeceu.

Penso que o climax está nessa passagem quando ela vai receber o dinheiro, pensando serem reais os descontos, e ainda agradece surpreendendo o senhorio que fica atônito com essa atitude submissa. Se ele efetuasse os descontos estaria roubando dela, mas sua intenção era apenas dar-lhe uma cruel lição.


Ele próprio se colocando no papel de poderoso, repudiava essa atitude. E indignou-se pela falta de reação da governmanta, não entendia como poderia ser tão pateta e tão palerma, pois mesmo sendo roubada não reagia.

Ele pensava surpreendê-la dando-lhe essa lição, mas acabou sendo surprendido.

Se puder ajudar em algo mais, podes pedir.

Obrigada por sua participação no blog.

Um ótimo final de semana!