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sábado, 21 de maio de 2011

Síntese do conto Kew Gardens de Virginia Woolf

Odete Soares Rangel

Virginia Woolf (Kew Gardens)
singrandohorizontes.wordpress.com
O conto Kew Gardens (grande parque a Oeste de Londres), com sua paisagem de uma tarde de julho, parece uma pintura impressionista, marcada por flashs-backs dos pares que por lá passeiam. As ações se resumem ao vaivém dos pares com suas memórias do passado, mas que não ameaçam o futuro. Tudo recebe um colorido especial pelos efeitos de luz e de cores sobre o canteiro de flores. 
Flores na Holanda

Simon e Eleanor, andavam um pouco distante, ele vagueando pelo passado, ela mais determinada e atenta às crianças. Ele lembrou de quando esteve lá com Lily e implorou que se cassasse com ele, enquanto uma libélula se divertia andando em círculos a sua volta.  

Voltando a realidade Simon  questiona Eleanor se ela pensa no passado, uma maneira elegante de saber se a esposa pensava em algum ex-namorado. Ele revela a ela que estivera pensando em Lily. Ela retorna ao passado, mas o presente faz com que volte a realidade, ela precisa ir ao encontro dos filhos Caroline e Hubert. Agora caminham os quatro, lado a lado.

Aproximam-se dois homens, o mais jovem tinha uma calma aparente, o outro; um andar curioso, trêmulo e irregular. Ele falava sem parar, sorria para si próprio, voltava a falar. Falava dos  espíritos dos mortos, que segundo ele, estariam lhe contando coisas estranhas sobre suas experiências no céu. Depois, surgem duas mulheres idosas de classe média-baixa, examinaram o velho pelas costas, entre diálogos imcompreendidos pelos outros e pensamentos, decidem tomar um chá. Agora o par é um rapaz e uma moça que chegam e foram tomar um chá. Assim, um par após o outro com  o mesmo movimento irregular, passava pelo canteiro.  

Havia um tordo a saltitar pausado, e borboletas brancas dançantes. Nesse vaivém de pessoas e insetos, em meio a uma natureza exuberante, em meio as formas e cores, homens, mulheres e crianças procuravam a sombra das árvores. Era como se todos os corpos se amontoassem sobre o chão, mas suas vozes continuavam ressoando.  Vozes sim, mas sem palavras, quebrando o silêncio, numa alegria e num desejo apaixonado. 

Mas nao havia silêncio; todo o  tempo, os ônibus se punham em movimento, a cidade murmurava, no topo dela, o eco alto das vozes das pessoas e as pétalas de miríades de flores lançavam suas cores no ar, pode-se imaginar a formação de belos arco-íris.

Interessante, a analogia das flores com os seres humanos feita por Virginia, folhas em forma de coração e de língua, desabrochando na ponta significando a extremidade (cabeça), garganta, veias, etc. 

E assim, o conto se encerra. Homens e mulheres de diferentes faixas etárias e poder aquisitivo desfrutam do aprazível  parque, no qual elas são elas mesmas, ora se perdendo nas lembranças do passado, ora voltando-se para a realidade presente.

4 comentários:

Anônimo disse...

Como você interpreta a lembrança de Eleanor? o beijo no pescoço a tocou de que forma? Consegue imaginar quem seria a mulher de cabelo grisalho de sua lembrança? Tenho essa dúvida, se poder esclarecer ficarei muito grata, esse trecho do conto me intriga muito!

Odete Soares Rangel disse...

Olá amiga(o)

Desculpe a demora no retorno, mas estive viajando e quis reler o conto antes para relembrar a cena. Literatura nos possibilita muitas leituras, talvez existam trabalhos científicos que abordem essa cena, mas preferi ficar com a minha leitura. Obrigada por seu gentil comentário, o qual me instigou a repensar a cena que havia passado meio batida, quando da leitura do conto.

“Para mim, um beijo. Imagine seis garotinhas sentadas diante de seus cavaletes há vinte anos, lá embaixo perto do lago, pintando vitórias-régias, as primeiras vitórias-régias vermelhas que vi na vida. E de repente um beijo, na nuca. Minha mão ficou tremendo a tarde inteira, de tal forma que eu não conseguia mais pintar. Peguei meu relógio e marquei o horário em que me permitiria pensar no beijo por cinco minutos apenas foi tão precioso o beijo de uma mulher grisalha com uma verruga no nariz, a mãe de todos os beijos da minha vida.”

Ela andava absorta, apreensiva e atenta aos filhos, mas quando questionada por Simon sobre o passado, não nega a existência de fantasmas do passado que tenham relação com a felicidade e a realidade das pessoas, e foi induzida a resgates na memória. Penso que no fragmento do texto acima, fica implícito que ela era uma das jovens pintoras de um cenário lacustre, e que esse fato estava vivo na sua memória.

Foi seu momento mágico. As primeiras vitórias-régias vermelhas (cor da paixão) da sua vida, o primeiro beijo na nuca (roubado), cujo êxtase impediu-a de continuar pintando. E o fato de ela ter ficado trêmula, me induz a pensar que a senhora grisalha era apenas um artifício (personagem criada) para não revelar o verdadeiro autor.

O fato de ela marcar a hora do beijo em seu relógio, pode ser compreendido como um desejo de eternizar aquele momento mágico que se confundia com a cena da pintura das votórias-régias, arte pura. E por ter sido o beijo tão precioso, representava todos os beijos da sua vida eternizados na memória através dos tempos. Como era uma garotinha, existia a fantasia adolescente do amor eterno, fabuloso.

Tanto Simon quanto Eleanor divagam em suas memórias, misturando lembranças com o momento presente, naquele lindo dia de verão em Kew.

Veja que Simom e Eleanor andavam um à frente do outro, como se essa distância fosse necessária para não quebrar o encantamento dos pensamentos. Após o diálogo, começaram a andar lado a lado, como se tivessem se despido do passado e se reencontrado no presente.

Obrigada, um super abraço para você.

Cris disse...

Odete,

Excelente leitura/análise deste conto belíssimo de Virginia Woolf.
Parabéns!

Cristiane Ebert

Odete Soares Rangel disse...

Obrigada Cristiane pela visita ao blog e feedback. É muito importante a opinião dos internautas, assim terei a certeza de que estou no caminho certo, é só continuar evoluindo.

Amo literatura! Você encontra outras análises aqui no blog.

Grande abraço,